O microfone

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Todo mundo que trabalha com TV sabe do perigo que é um microfone aberto. Mas mesmo assim de vez em quando é impossível prever o que pode acontecer. Bom pelo menos dessa vez não foi nada comigo, eu só estava presente...

Semana passada estávamos gravando um dos programas no estúdio, com o apresentador super congestionado. Em dado momento liberamos o cara pra dar uma aliviada no nariz, porque a voz estava impraticável. Só que ele, ao invés de usar um lenço, aproveitou a "folguinha" e foi ao banheiro. E resolveu aliviar um pouquinho mais que o nariz...com o microfone aberto!

Imagina a situação: no meio da gravação (que seguiu sem ele) nós começamos a ouvir aquele barulhinho característico de um homem, digamos, tirando água do joellho. Passados os primeiros segundos de constrangimento, o diretor recobra a presença de espírito e manda fechar o microfone. Mas aí, né, já não tinha mais quem lembrasse do roteiro, da continuidade, de que dia era...

O apresentador, sem saber de nada, volta, rindo e brincando com a galera, como sempre. E todo mundo mudo. Ele estranha e pergunta o que houve; silêncio mortal. Até que alguém conta pra ele o que aconteceu. Ele ficou roxo por alguns segundos, mas recuperou o bom humor e só disse: podia ter sido pior. De fato. Ele podia ter aliviado mais do que a bexiga. Ou podia estar ao vivo...

Quem quer ser metereologista?

terça-feira, 24 de março de 2009

Aqui em Madrid é mole! Simplesmente não consigo me acostumar com essa amplitude térmica, esse clima de deserto. A previsão pra hoje, por exemplo, é de tempo claro a encoberto (?), com temperaturas variando entre 1oC e 22oC. Difícil é saber se eu preparo um piquenique no parque e coloco um biquini ou se ligo a calefação e faço um foundue.

Valencia: o Mediterrâneo, as Fallas e a Paella

domingo, 22 de março de 2009

Semana passada fomos conhecer a maior festa da região de Valencia, as Fallas, uma manifestação popular quase tão importante quanto o carnaval no Rio. A comemoração acontece na época do feriado de San José (19/03), que esse ano caiu numa quinta-feira, o que significou 4 dias pra conhecer o lugar.

Cada vez que eu viajo pela Espanha descubro o quão ignorante ainda sou sobre o país. Por exemplo, eu não sabia que em Valencia eles tinham um idioma próprio (além do castellano), o Valencià. Superficialmente falando, parece uma mistura de castelhano e francês, lembrando muito o catalão, só que bem mais compreensível. Viajando e aprendendo!















O Valencià Uma atualização: segundo minha amiga catalã, o Valencià e o catalão são praticamente a mesma língua, com pouquíssimas diferenças. Os valencianos odeiam que se diga isso. De qualquer maneira, rebati dizendo que o valenciano eu entendia, enquanto o catalão era grego pra mim. Mas ela argumentou que quando fui à Catalunya eu falava menos espanhol e isso pode fazer muita diferença na hora de entender. Faz sentido...

Valencia é uma cidade pequena, simples e bonita. Assim como quase todas as outras cidades espanholas que visitamos tem um centro histórico de ruazinhas apertadas e construções de muitos séculos atrás, uma parte nova onde eles contruíram a ultra-modernosa Cidade das Artes e das Ciências e (aqui vem o diferencial) a praia. Ou seja, você pode acordar de manhã e ir à praia, visitar o oceanário na cidade da ciência, pegar um cineminha numa das muitas salas do complexo UGC e terminar o dia tomando uma cerveja ou um sorvete nas ruas do centro histórico. Dia perfeito! Por essas e outras Valencia entrou na lista de possíveis lugares para morar.




























Meus programas favoritos: praia e oceanário!

Outras atrações, especialmente interessantes pra quem gosta de comer, são o porto e o mercado. São dois dos poucos lugares onde você consegue comer uma verdadeira Paella Valenciana e não as de microondas que a maioria dos restaurantes vende (e caro) por lá. Aliás, sobre a famosa Paella um esclarecimento: a versão mais conhecida no Brasil, a de frutos-do-mar, é uma variação da original, que no começo só levava coelho e frango. Muito depois eles acrescentaram o porco (alguns o pato também) e atualmente é essa combinação que caracteriza a Paella de Valencia. A de frutos-do-mar, minha preferida, é chamada de paella mista e dela se originou um outro prato, chamado Fideuá, que leva macarroezinhos pequenos ao invés de arroz. Esse também é bem comum por aqui, só que tem um nome diferente em cada região (nem sei como se chama aqui em Madri).

No porto não deu tempo da gente ir, mas o mercado municipal é maravilhoso. Tem uma variedade imensa de frutas, queijos, conservas e claro, presuntos. Pra quem gosta de comida é um programa pra manhã inteira.

Outras comidas típicas da região: a orxata (horchata, en castellano, uma bebida típica feita com um tubérculo chamado chufa, que eu nunca vi. Fica da cor do leite. Eu não gosto, mas o pessoal aqui em casa adora) e o farton, um paozinho mais seco que eles molham na horchata ou no chocolate (nunca vi tantas "xocolaterías" por metro quadrado). Os churros estão por toda parte e lá eles também têm versões recheadas e com cobertura. Mas o mais típico do lugar é o bunyol, um bolinho frito de abóbora, doce, abundante na época das Fallas.





























Acima, o Mercado. Abaixo, comendo farton na Cidade das Artes e das Ciências

Falando nelas, voltamos ao motivo principal da nossa viagem. No começo eu não conseguia enteder muito sobre o que era essa festa, toda explicação que eu recebia terminava em "sabe os carros das escolas de samba no Brasil? Então, é igual, só que parados". Ahhh, que bom, agora eu sei o que tem na festa, só continuo sem saber o porquê...

Mas de fato a festa é muito complexa, mistura temas religiosos, conotações políticas e tradições pagãs, entre outras coisas. Basicamente ela é composta de muitas queimas de fogos durante todo o mês e várias pequenas celebrações, como desfiles, oferendas, etc. As fallas propriamente ditas são as esculturas, feitas de carvão e isopor e baseadas em temas cotidianos ou atuais, que são montadas em vários pontos da cidade e no final da festa são queimadas. O ponto alto acontece entre os dias 15 e 19/3, com as mascletás (queima de fogo), a la Nit de Foc (ou Noite do Fogo, grande queima de fogos do dia 18) e a Cremá (queima) final. Descobri várias explicações diferentes pra festa, as duas que eu mais gosto são essas: ela teria começado com uma tradição de carpinteiros que construíam esculturas com o que sobrava dos seus trabalhos e no dia 19/3, dia de São José, queimavam essas peças em praça pública como homenagem ao santo ou que na verdade a queima das esculturas é um resquício das comemorações do equinócio da primavera (que é dia 20/3, a queima é realizada exatamente à 0h desse dia) quando se armavam grandes fogueiras pra queimar o "mal" e celebrar a prosperidade e a fertilidade. Seja qual for a razão, a festa é linda.
















A falla principal na Plaza del Ayuntamiento, antes e depois.


Lost in translation!

segunda-feira, 16 de março de 2009

Mais para a série de coisas imbecis que acontecem comigo (e cada vez com mais frequência):

Estou na ilha, editando. Toca o telefone:

- É da clínica Golden?
- Não...
- Desculpa.

Sigo editando. Toca o telefone:

- Clara?
- Não...
- Ah, Clara?
- Não, aqui não é a Clara. Você ligou errado.
- Não liguei não, eu estava falando com a Clara nesse número agorinha mesmo. Só que caiu a ligação.
(eu mereço!)
- Senhor, houve alguma confusão. Esse não é o telefone da Clara, tente outra vez.

Volto ao trabalho. Meia hora depois...

- Vero?
- Não. Você ligou...
- Carol?
- Não, você ligou...
- Dani?
- Não...
- Sos gente?

Peraí, que tipo de pergunta é essa? Só porque eu não sou a pessoa que o cidadão procura eu não seria gente? Só porque eu sou becária? Fiquei puta e respondi...

- Claro que eu sou gente!
- Tá bom, então você pode me passar a Dani?

Coisas que passaram na minha cabeça nessa hora:
1. 14 mil palavrões desconexos
2. ele é maluco, vou desligar na cara.
3. isso é um trote, vou mandar ele ir pro quinto dos infernos.
4. 92 respostas engraçadinhas
5. eu estou em outro país, posso ter entendido errado, melhor passar pra alguém.

Fiquei com a última, passei pra redatora, que desligou rindo. Nessa altura eu já havia me acalmado e bastou olhar pra cara dela pra entender o que tinha acontecido...

Sos na Argentina é a conjugação para o vos (que seria como o nosso você). Logo, se eu estivesse na Argentina a pergunta de fato teria sido "você é gente?" Mas eu estou na Espanha. E sois (que soa igualzinho a sos) aqui é vosostros, plural, seria como o vocês. Nesse caso a pergunta em questão eram "vocês são gente?", ou seja, ele queria saber se a cabine era da equipe do programa Gente.

Nada como pensar cinco vezes antes de responder...

Tamales

domingo, 15 de março de 2009

Bom, parece que finalmente descobriram o meu talento. O pessoal lá da TV reparou no meu incrível prazer em registrar aventuras culinárias e resolveu investir nesse meu lado. Desde a feijoada venho acumulando novos pratos do mundo, o que é uma delícia (e olha que eu nunca comentei com eles que tenho um blog com o nome Panza, ¡callate!).

Essa semana foi a vez do Tamal Valluno, um prato tipicamente colombiano, que eu conheci antes numa versão do norte da Argentina (na feira de Mataderos). Embora a base seja a mesma - farinha de milho curada e muito recheio do que se imaginar envolvido em folhas de bananeira - o colombiano é um pouco mais interessante, porque tem mais variedade de recheios e é beeeeem maior.

Mas de fato uma das melhores coisas de gravar os pratos é que a gente acaba conhecendo muita gente. As pessoas abrem as casas, o coração, contam suas histórias, é uma troca incrível. Numa dessas eu conheci a dona Maria, uma colombiana simpática que me contou os maiores dilemas de ser latino-americana na Espanha. Fora as coisas já habituais, como preconceito, pouca valorização no mercado de trabalho e etc, também tem a questão da cultura. Dona Maria me conta que um dia, depois de muitos anos vivendo por aqui, recebeu sua família da Colômbia. Estava calor, era muita gente e ela não pensou duas vezes: olhou pro varandão e fez uma pequena churrasqueira improvisada pra preparar os tamales e umas carnes. Comida vai, comida vem, de repente toca o interfone. Eram os bombeiros. Algum vizinho desacostumado com a churrasqueira viu a fumaça e nem se deu ao trabalho de chegar na varanda pra ver o que era, foi logo chamando os bombeiros. E lá se foi a festa... Como assim? Triste a pessoa trabalhar a semana toda e não poder fazer nem um churrasquinho na própria varanda no fim de semana. E olha que todos os apartamentos em Madri têm varanda, que desperdício!

Bom, em outra ocasião ela disse que foi a mesma coisa. Segundo a tradição do povo de onde ela é, todo dia 31/12 é preciso purificar a casa (com aquele defumador tipo de igreja). Pois é, estava ela purificando a própria casinha quando toca o telefone. Eram os bombeiros, que desta vez mais espertinhos ligaram pra checar o que era antes de se abalar até lá. Ô povo mala...

Bom, as histórias são muitas e essa nova experiência só vem comprovar minha antiga teoria: a comida é o fator universal que nos une e a melhor forma de conhecer a cultura de um país é, sem dúvida, pela boca!!!



Os tamales em estado bruto e depois de abertos, prontinhos pra comer!

Visitas!!

quinta-feira, 12 de março de 2009

As visitas mal foram ebora e eu já estou sentindo falta delas. Como ainda por cima hoje é aniversário da Rô e eu não vou estar lá, aproveito pra postar umas fotinhos e matar a saudade.

1. Eu e Maria, no aeroporto
2. A gente turistando
3. Eu e Rô, versão européia
4. Robson aproveitando os "bocatas" locais
5. Todos juntos na sobremesa









Um dia negro na história de Madri

quarta-feira, 11 de março de 2009

Hoje completa 5 anos desde o 11m, sigla que os espanhóis usam pra designar o dia dos ataques terroristas em estações de trem de Madri. Foram quase 200 mortos e 2 mil feridos. Não tem uma vez sequer que eu passe pela Estação de Atocha sem pensar em como deve ter sido, sem sentir um certo medo.

É um medo completamente diferente do que eu sentia no Rio, aquela paranóia de caminhar olhando pros lados, segurando a bolsa e andar de carro de vidro fechado. Não dá nem pra ter aquela (falsa) sensação de controle, de que pode evitar os lugares perigosos, ou ficar ligado no que acontece ao seu redor. É uma completa sensação de ignorância, de impotência. De medo.

Mas chega, paro por aqui. Amanhã será um dia como qualquer outro e as pessoas vão voltar a falar de como o tempo melhorou. E nós vamos voltar a escrever sobre trabalho, viagens e comidas. Quem sabe, se tudo der certo, o 11m não seja daqui a alguns anos extamente isso, apenas um dia negro (num passado distante) na história de Madri.